16 maio 2011

Filho de João Hernesto

Depois de muito esforço fugi daquela rotina cansativa que já me atormentava há alguns meses. Senti uma boa dosagem de liberdade. Ainda que muito pequena. Foram poucos os minutos que este gosto me fez bem. Alguns poucos segundos a felicidade desapareceram no ar. E eu novamente perdi o foco do que fazia ou o que acontecia. Caminhei.
Convido então um bom amigo para comigo fumar o bom e velho cigarro da tarde de sexta-feira. Ou também de todas as nossas tardes juntos. As tardes de sábado. Sentamo-nos num dos nossos bancos, ou apenas aquele nosso banco de sempre. Nós não lemos um jornal. Nós não tomamos um café. Apenas sentamos, trocamos um cigarro ou outro. Pois temos gostos diferentes que por vezes estranham-se e misturam-se.
_ Frenesi.
_ Sim, é, um animo que eu sinto antes de tudo começar a acontecer.
_ Tudo bem. Eu sei o que significa. É que foi engraçado o uso da palavra.
_ Pois é.
_ Eu não gosto do “Frenesi” entende? Bom, vou tentar explicar melhor. É como se você estivesse aqui. Cansado da vida e de repente tomasse partido de se mudar da cidade. Pra um lugar bem longe. Você entraria no seu carro e veria uma estrada normal. De folhas velhas e grama ruim. Sem uma boa visão. De repente a estrada se fecha e você vê um tonel. Você meche o corpo no banco do seu carro e aperta as mãos no volante. Você está então se preparando pra entrar no túnel, que você não conhece. Você quer conhecer. Porque você não sabe nada sobre ele. Você então entra no túnel e lá dentro é tudo negro. Você começa a ter medo. Porque quer conhecê-lo melhor. Você já o penetrou e ainda assim está perdido num lugar onde você é cego. Não sabe a textura das paredes a sua volta e se tem limo. Não sabe as cores. Não sabe o cheiro. Mas suas mãos estão num volante a 200 km por hora e você está entregando-se de corpo e alma a algo que você não conhece. E neste momento você quer conhecer. Porque você está prestes a tocar no interior mais envolvente. O fim do túnel. Que é a luz. E a luz num lugar escuro e a resposta. E tudo que você tem de bom. É tudo. Neste momento você sente como se tudo fosse dar certo. Que tudo fosse mudar e ter um novo sentido. Você sente que a vida será nova, será boa daquele dia pra frente. Você mete o pé no acelerador e vai com toda a força pronto pra entregar-se mais ainda aquilo que você ainda não conhece, mas no inicio de tudo se propôs a conhecer. Contudo não tinha total certeza e tampouco coragem. Você já se sente completamente feliz e está completamente correto do que quer. Você é forte para encarar aquele momento e então. Bum!
_ Bum?
_ Você atravessa o fim do túnel e vê a mesma estrada de folhas velhas e grama ruim. Sem uma boa visão. Você se entregou ao nada. É então que você percebe que o único momento feliz da sua vida foi o “Frenesi”. Quando você tentava saber, conhecer e tocar em algo tão lindo. Algo tão puro e confortável de ter pra você. Porque quando realmente você toca. Você vê que não é como você sonhou por um instante.
_ Pois é. Eu já passei por essas coisas. Você vai se acostumar. São fases da vida.
_ Pois é. Ultimamente eu não estou escrevendo muito.
_ Eu também não. Preciso escrever. Estou com uma idéia na cabeça. Mas vamos embora que eu tenho uma reunião.
_ Eu vou voltar pro trabalho.


Dedico este àquele que não “É”.
Matt Oliver Castan

02 maio 2011

Vontade

Eu gostaria de estar escrevendo uma carta para você. Mas como é poder imaginar o que eu sinto por alguém que eu não conheço. E eu nunca fui de conhecer alguém tão rápido e instantâneo. Eu quis te conhecer. Naquela noite que sorri para você. Seus olhos brilharam numa alegria que eu nunca verei novamente. Sonhei. Acordei e vivi cada segundo da sua ausência sem ter a esperança da sua presença. O nosso amor não existe. O meu platonismo insistiu em te querer. Eu quis te conhecer ainda mais. Eu quis te querer ainda assim. Ainda que eu não pudesse. Eu ainda quero querer-te mesmo querendo não querer. Ainda quero te esquecer. Mas sinto falta da falta que a vontade de tê-lo me faz. Sou dois em um. E o outro eu é cruel comigo.
Quero lhe falar tudo que sinto por você. Mesmo que isso tudo não exista no mundo real. Fico calmo por saber que estou completamente flutuante no mundo fantasia. E nunca vou dizer que te quero. Nunca vou tentar um beijo que eu sonho. Nunca vou beijar o homem que eu quero conhecer. Nunca vou conhecer. Não nessa vida. Vou te amar em segredo. Ate que este segredo deixe de ser um segredo. Portanto nunca sonhei com você. Nunca o quis. Contudo. Eu quero saber sobre você. E ouvir sua voz para isso. Eu não quero seus beijos. Mas seus abraços me confortam como os de ninguém. Eu não quero tocar sua pele de carne. Mas quero dormir ao seu lado uma noite qualquer. Eu quero esquecer-me de você. Quando eu durmo você toma conta de meus sonhos. Isso pode ser cruel para mim. Isso pode ser verdade. Mesmo não te querendo preciso querer-te para saciar a fome da sua ausência.
Eu nunca te procurei. Eu nunca sonhei contigo. Eu não preciso mais de alguém. Por quê? Pode ser a peça que faltava. Essa pergunta sem resposta. De você ser tudo aquilo que eu sempre quis, mas nunca procurei querer? Eu tentei esquecer um pouco de mim. E esqueci que comecei. Eu morri por alguns dias. Alguns meses, ou algum tempo. Eu me esqueci quanto tempo faz que eu fui esquecer. Eu passei a lembrar sentindo sua essência do meu lado. E eu me lembrei do esquecimento. E no esquecimento lembrei que me esqueci de mim. Não lembro mais por que escolhi esquecer. Quero esquecer isso e viver.
Eu poderia estar escrevendo uma carta. Eu poderia estar deixando de lado o medo e a vergonha. Poderia, talvez, ultrapassar o submeter... Ao seu lado? Nunca vou poder querer-te comigo. Bem sei disso que nunca o tentei. Eu quis te conhecer. Eu quero estar com você. Eu quero sentir um pouco do seu gosto. Eu ainda estou confuso [...]
Márcio Mattos

12 abril 2011

A Morte dos Admirados e a Minha Saudade

Todos aqueles ao meu redor estão desfrutando comigo uma dor inconfundível. Incomparável tanto quanto o café com leite sem açúcar que eu tomei agora a pouco. E não franzi o cenho. Meus aliados distantes como a chama do céu que queima o meu corpo. Estamos-nos todos prontos agora que as nuvens cobrem de prata o céu do outono. E o vento lento e calmo. Como sempre lento, calmo, seco, frágil. Ele assopra poucos galhos das árvores daqui. Ele esta ali do lado de fora sentado mais uma vez com um assassino nos dedos. E ainda assim tão calmo? Como num mundo tão violento e com a morte na mão ele pode ter tempo pra pensar? A minha conclusão tem nome. Esta é a dor. E ainda que eu tente estar ali ao seu lado com a morte a nossa companhia. Ele se fecha como uma pirâmide, porém sorrindo. Como ele pode ser tão grande? Tão arrogante e tão digno de admiração? Repleto de atalhos e segredos e mistérios e contos. E tão jovem quanto velho. E então ele cai na realidade do cotidiano novamente caminhando de volta numa linha rotineira. E eu aqui sentindo sua falta. Lembrando dos bons tempos quando a gente conversava.
E ela tão ocupada não estava em casa, por pelo menos três ou quatro dias. Não notei se passaram talvez, seis ou sete meses. Mas ela não estava mais ali por perto. E quando a vi, tão confusa e com os olhos concentrados. Não nos bancos, não nas flores, não nas pessoas. Como se alguma pessoa realmente estivesse ali, se não a carcaça. Nem ao menos nas árvores ao no céu. Ela não estava concentrada em mim e nem em meus olhos. Em meu colo ela estava somente soltando palavras. Queria como eu, recuperar a segurança de tempos atrás. No meu colo, havia de certa forma, um pouco do passado. E no passado haveria de ter um pouco de felicidade. Talvez? A morte novamente flutuando ao nosso redor tão serena e calma. Pois tem tempo pra isso. Parecia uma ciranda de negro fantasmagórico ao nosso redor. Pois era doce e meiga. E ela ainda franzindo o cenho levantou-se e voltou pra mesa de madeira antiga junto aos seus meninos. Rodeando a rotina com pena. E eu aqui sentindo sua falta. Lembrando dos bons tempos quando a gente conversava.
E ele dizia tão rápido. Ali sentando ao meu lado. Eu tinha medo de certa forma. Sua agitação e sua agressividade com as palavras e os estrangeiros. E eu que nem sequer entendia ou acompanhava. Ao longo das estações eu pude conhecê-lo como ninguém conhece. Talvez somente eu não ainda o conheça. Posso dizer que sinto a essência tocando a minha pele a cada instante. E falar dele é falar mais de mim. Pois tudo em mim. É mais dele do que meu. Ele  esculpiu-me sem querer do mesmo modo que eu falo dele refletindo em mim. Ele foi sempre tão alegre e sorridente e vê-lo aos prantos faz de mim um decadente. Tanto sou capaz com sua felicidade quanto sou incapaz com sua tristeza. E ele ali falando e gritando e chorando e perdendo o controle. E não sabendo o falar, como gritar, como perder-se. E eu aqui sentindo sua falta. Lembrando dos bons tempos quando a gente conversava.
E aquela inocência que ela tinha no último festival. Seus cabelos meigos que não estão mais roçando minha pele devagar. Ela falava como sempre. Maior que todos nós. Mais velha que toda a música que fez a música ser alguma música. Ela dizendo “sim” e encenando um não.  Ela me fitando os olhos e conversando em silencio. E eu sorrindo com medo. Ela abraçou-me com carícia e fez-me lembra dos velhos tempos. Ela me abraçou porque devia e não porque sentia. Ela me abraçou tentando espremer como numa laranja de sentimentos todo o passado que passamos juntos. Ela sentia sede do suco do passado quando era bom. Ela queria tudo de volta. Ela queria que nada fosse o que era. Mas queria ser quem era quando nada o fosse. Ela acenou caminhando de costas e sorrindo. Virou-se, mexeu no cabelo enquanto abaixava a cabeça e segurou na alça da mochila inquieta. Ela gritava em silêncio. E eu aqui sentindo sua falta. Lembrando dos bons tempos quando a gente conversava.
Eu gostaria de ser somente um amigo meu. Que me vê uma vez por dia e não sofre mais. Eu gostaria de não ser o assistente vip do meu dia. Eu gostaria de não viver aqui dentro. Pois eu acordo, eu penso, eu reflito, eu sonho daí eu sofro, eu caminho, eu penso, eu morro por segundos, resolvo-me, eu decido, eu vivo,  ando, alimento-me, vou e volto, eu volto novamente. E quando eu chego novamente ao ponto final de partida pro novo inicio da rotina e do cotidiano. Quando me deito. Eu fico aqui sentindo falta. Lembrando dos bons tempos quando a gente conversava em paz. E tudo mudou. E o mundo girou-se e eu ainda pensava que tudo seria normal agora. Que tudo seria bom, contudo. Eu sou diferente. Meus aliados estão alterados pelo destino e eu fico aqui morrendo. Deitando na rede com a morte nos meus dedos, seu cheiro nos meus lábios, e ainda assim tão calmo. Porém não. Quieto. Pensando...
Márcio Mattos e  Matt Castan

23 março 2011

Carta de um Palhaço

Vejo sua imagem no topo de uma árvore. A mais alta num jardim sem flores. Sou apenas uma criança. Aquela solitária que sonha construir uma vida sobre os galhos velhos, contudo, puramente jovens. E como eu gostaria de ser o vento para soprar o topo da árvore. Tua pele.
Sou apenas uma criança de um sonho puro. Sou fraco e pequeno.

O tempo pode ser meu maior aliado hoje. Se não fosse pelo mesmo. Deixaria tudo sumir como fumaça. Mesmo que a fumaça não suma por completo. Ainda que com esse pensamento fosse capaz de esquecer-me do ultimo mês. Mas é impossível que minha força seja grande o bastante para matar a essência de um ano de sonhos.
Desde a primeira noite, mesmo sentindo como se não fosse o primeiro suspiro. Quando coberto de estrelas na noite quente e confortável. A observar os olhos de criança num palco vivo de emoções. Ao som de um acordeão que cantava musicas de um tempo antigo. Sentindo cada tecla do piano bravo que toca feroz os segundos em que o circo pegaria fogo. Era somente um sorriso de um palhaço. Tão quieto e inocente com o coração prestes a pular fora da garganta com a emoção dos tambores e o fogo nas argolas. Foi tudo tão magnífico. Ainda sinto ofegante minha respiração.
Foram dias de gloria na fantasia de anéis de cabelo negro em uma pele de porcelana frágil. Silenciosa e Misteriosa. Caminhava calmo. Indo embora. Quando foi a hora que imaginei que o sonho havia acabado. Foi então o fim do mês de maio.
Os ventos uivaram com as chuvas e tempestades de calor das tardes de julho. Quando um festival trouxera vida de volta ao meu pobre coração. Que não tinha sossego desde a primeira ilusão. Antes dos palhaços nos sorrirem e incendiarem nosso coração. Foram-se varias noites até chegar àquela que considero sua. Logo apaguei as luzes e somente pude abrir meus olhos novamente nas noites de São João. Sentindo-me uma criança de dezessete pude sentir uma fraca melodia no murmúrio forte dos espectadores. Ela fugia calma de um sorriso pequeno. Nunca havia chegado tão perto. Nunca haveria de esquecer-me daquele segundo. A tua voz.
Quando os ventos mudam. E sempre o fazem. Dedico-me a paz de um lugar sereno que é mais meu. Um lugar de sonhos e de bancos de madeira. Quando troco o alimento pela doença é um vicio. Posso notar coberto por nuvens e calor solar mais uma vez a pele doce de porcelana dos olhos quietos; calmos e inocentes. Na rotina podia ver meu sonho acontecer por segundos novamente. Tão poucos, contudo, tão longos segundos. Tomavam-me vinte e quatro horas do dia num mundo de suspiros e fechar de olhos. Intenso momento que me dedicava inteiramente a vê-lo passando. Tão perto e sem conhecimento dos meus sentimentos. E de tudo que me acontecia num mundo imaginário que nos rodeava. Ou talvez, apenas a mim.
O mundo calou-se por um instante de coragem. Olhei-o de longe e rabo de olho e tive o então  encontro de seus olhos. Foi no mesmo instante que perdi minha visão. E cego acreditei na ilusão em que nos meus sonhos tornavam-se reais. Quanto gostaria de apagar todo esse passado ultrapassa o numero de estrelas no universo. Mas é impossível que minha força seja grande o bastante para matar a essência de um ano de sonhos.
Há castigos piores neste mundo. Privar-me de sua existência por segundos tem sido para mim o maior martírio dos últimos dezoito anos.  Situação a qual perco juízo e desconheço a razão. Momentos sem controle, quando penso se é capaz de existir alguma forma de amor nos meus devaneios. Sinto falta daquilo que nunca tive.


Márcio Mattos

Circulos Viciosos

Eu estou numa rota direta como um andróide e o meu coração bate como uma bomba. Sem você por aqui é desconfortável. Eu sempre preciso de você do meu lado e você me faz cair como se eu desmoronasse. O caminho que você me fez percorrer é traçado por estrelas no céu e dor a minha volta. E eu não sei por quê.
Tento fugir de você e tudo isso, mas acabo voltando. Dou um giro completo no caminho que fiz pra te encontrar. Não consigo sair dessa armadilha que você pregou em mim. Meu coração como uma bala. Tente fugir e permaneça parado como num circulo vicioso. Porque você sabe que a gente sempre volta. Sempre volta.
E como se eu acordasse toda manha começando tudo do inicio. Não é uma rotina como a que eu sonhei. Como um déjà vu sem fim. Peço-te para me deixar ir e você me segura na porta de saída com os olhos. Eu preciso sentir-me bem como se você fosse embora da minha vida ou se eu encontrasse um lugar qualquer para ir. Sei que não é aqui, pois as pessoas interferem naquilo que elas não sabem. O que eu sinto aqui dentro é tão secreto que nem eu mesmo posso definir. E eu não sei por quê. Não sei por quê. Não sei por quê.
Eu permaneço fugindo, tentando, cantando e gritando. Mas continuo enrolado no centro desde anel. Eu puxo essas cordas, mas nem as queimando consigo me livrar. Aquelas milhas que eu corri atrás de você tentando fazer alguma diferença não mudaram nada fora de mim e eu não sei por que tento fugir de você e tudo isso, mas acabo voltando. Dou um giro completo no caminho que fiz pra te encontrar. Não consigo sair dessa armadilha que você pregou em mim. Meu coração como uma bala. Tento fugir e permaneço parado como num circulo vicioso. Porque você sabe que a gente sempre volta. Sempre volta.
Matt Castan

02 março 2011

Liberdade e Fantasia

Alice ali deitada na cama de pernas cruzadas e de cabeça longe olhando o teto. Pensava no quanto o mundo era um lugar ruim. Não gostava das pessoas. Não gostava da cidade. Não gostava dos jardins de outono. Acreditava no caráter e no moralismo. Queria se mover. Porém era uma garota jovem. Jovem demais. Tinha a pele clara e lisa. Tinha a alma pura. Nunca havia feito nada de errado. Nunca havia tentado algo diferente. Mas ela era diferente. Mais velha do que todos os seus conhecidos. Mais madura que seus pais e mais sabia que seus avos. Era incoerente viver sobre essas circunstancias. Ela gostava de filmes de suspense e não acreditava nos escritores do amor. Lia livros bons e dignos de um velho de 60 anos. Ela não tomava nada artificial e não comia, simplesmente, nada. Água de manha no banho, à tarde no café e a noite antes de dormir. Sempre ali na sua cama. De madeira velha, como a casa, com cobertores de renda velha e cheiro de mofo. Ao seu lado na janela o vento sacudia o pinheiro do quintal. Sacudia como a vontade que a jovem menina tinha de se levantar da cama. Mas era, pra ela, tão confortável estar ali com a cabeça sobre as mãos. Descansava tão delicada que parecia calma. Sua cabeça girava como um tufão. Como seus conflitos flutuando num universo paralelo.
Alice não gostava do seu namorado. Alice não gostava de beijos, e nem tem caricias. Alice não gostava de meio de comunicação virtual. Não tinha telefone, não tinha internet, não tinha televisão no seu quarto. Alice tinha um pequeno radio velho de madeira de seu avo. Que escutava somente na hora de dormir. Alice pensou um pouco e viu que deveria se mover. Jogou as pernas para fora da cama e pôs-se sentada com as mãos sobre os joelhos. O cabelo levemente bagunçado com alguns fios caindo sobre o rosto.
Desceu as escadas com os murmúrios da família invadindo os ouvidos. Não deu atenção. Não deu adeus. Pegou um guarda-chuva e saiu pela porta da frente. Sem medo de fazer barulho. Sem importar-se com alguém que estava ali. E do lado de dentro o mesmo. Ninguém se importou quando ouviu Alice saindo do quarto. E descendo a escada e batendo a porta. Ninguém nunca havia se importado com a boca suja da menina. Ninguém nunca havia se importado com a falta de apetite e suas esquizofrenias. Aos olhos da família a menina era louca. E louca foi andando sobre as folhas que cobriam o caminho de pedra branca. Pedra solta que fazia barulho. Ela foi com a roupa do corpo. A roupa com que dormira noite passada. Nunca sorria, não abria a boca para nada. Seus olhos giravam lentamente sobre a paisagem. Parecia não conhecer aquela cidade horrível. Será que Alice um dia havia saído de casa? Caminhado pela cidade?
Alguns se vestiam bem, alguns tocavam violão na calçada. Alguns vendiam e alguns comprovam. Mesmo assim alguns roubaram. Alguns choravam e alguns eram bobos. Alguns eram feios e a maioria era hipócrita. E Alice levou o dia inteiro para chegar ao outro lado da cidade. Onde havia uma estrada cruzada por uma linha amarela.  Um homem sem camisa, de corpo jovem e semblante velho trocou o guarda-chuva de Alice por uma garrafa de água. Uma água estranha e ardente. A garota bebeu. E viu sua pele envelhecer um pouco. A partir de então a mulher continuou bebendo a água. Sem se preocupar. Um caminhão vermelho parou na beira da estrada e abriu a porta. Alice entrou e permaneceu calada ate beber a ultima gota do líquido desconhecido. O motorista, um bom homem, sorriu para Alice. Logo a mulher contou-lhe toda historia de sua vida incrível. De como nasceu e cresceu e fim. E o motorista fascinado abriu a porta para que a mulher descesse. Sem querer saber seu nome e sem contar seu nome. Sem agradecer e sem dizer uma palavra colocou seu pé no chão enquanto o cabelo voava atacando seus olhos. Olhou para cima e viu algumas desprezíveis estrelas brilhando. Com isso já sabia as horas, os minutos, os segundos e o clima. Como se estivesse em casa voltou no mesmo caminho. Adentrou a rua que abria a cidade e demorou toda a madrugada para chegar ao outro lado da cidade. Era tudo novo e diferente. Poucas pedras no caminho de casa. O pinheiro existia somente na raiz e num pequeno toco. O sol começou a nascer quando ela chegou do outro lado. A luz batia no seu rosto cansado lentamente. Não havia som, nem leves sussurros na cidade. Alice entrou com medo de fazer barulho. Subiu as escadas na ponta dos pés e achou ali no quarto uma cama de madeira podre. Um rádio queimado e um colchão com poeira. Deitou devagar. Deitou-se de lado com a cabeça sobre o braço esquerdo que deitava sobre o travesseiro. Uma lagrima escorreu quando fechou os olhos. Adormeceu devagar. E descansou.
Alice morreu na madrugada de oito de Abril. Trinta e sete anos depois de sair de casa pela primeira vez. Seu corpo não foi velado. Fez companhia a toda a poeira que jazia em cima do colchão.
Na casa antiga, na cozinha. A família comemorava mais um dia feliz. Depois de trinta e sete anos desde alguma coisa boa que havia acontecido na casa. Ninguém se lembrava mais o porquê da festa. Alguém dissera a trinta e sete anos atrás. “O dia mais feliz de nossas vidas. O dia da liberdade”.
Daniel Gualandris

Intocável pele

A dor de cabeça que não dói fisicamente. O coração batendo forte por minutos, horas e dias. Sem parar. Os olhos fixos na mão trêmula e a consciência focada no corpo debatendo-se como um ataque epiléptico. Como se eu não fosse aquele que sempre fui. Como se eu não conhecesse esse sentido sempre acontecido comigo. A falta do controle e a falta do foco na vida. Quando digo que estou com problemas no trabalho, porém o trabalho é meu corpo e minha alma. Minha necessidade de  ter alguma fonte de combustível. E a minha fonte passando longe como uma miragem. E rápida visão de ódio, não meu. Minha vergonha e minha dor desconhecida. Minha vontade e minha necessidade vêm à tona em segundos quando eu vejo a chuva caindo. E a chuva sem me tocar molhando o corpo. As lagrimas dos céus escorrendo sobre minha face. Minha roupa seca e minha pele suada. O som que me lembrava os sonhos, a música que me fazia dormir. Nada me conforta mais. Nada me acalma mais. Nada é capaz de me fazer parar. Eu quero parar e não consigo. A necessidade. Eu sempre sonhei com aquele tesouro. Eu sempre quis aquele arco-íris do céu e do mundo. Que deveria ser do meu mundo, que deveria ser meu. Eu queria que fosse ao meu lado que brilhasse. Eu queria ser essa cor morta por de trás da vida. Eu sou a nuvem negra que calma voa por ali. Sem falar. Sem pesar. Sem sentir e sem direito. Sem braços e de mãos atadas eu sou o melhor. Somente por debaixo da casca grossa das arvores velhas de milhões de anos. A minha beleza é rubra e forte. Minha beleza e muito, e ainda assim pouco, valorizada. Ela esta no meio de muito verde. No centro e quase impossível de ver. É preciso crescer, é preciso se elevar, é preciso ser maior para alguma valorização do valor da vida. Do valor do sentimento. Da minha vontade.
Eu queimo rápido feito álcool e explodo como gasolina no deserto sobre o sol quente. O sentimento é como isso. Instantâneo, ligeiro, veloz. É como a pétala que cai da ultima mulher do outono e quando toca o chão sobe ao céu como fogos de artifício. E como o sangue que pode vazar pelo diafragma oprimido como a ponta da agulha em poucos segundos e pode não ser. Tudo se limita na explosão dos sentidos pecaminosos. Do meu desejo. Tudo acontece de acordo com meus dedos. Tudo vem de mim e vai ao chão quando explode. Tudo vem do meu sonho e corta-me em brasa. Meus devaneios me cicatrizam de tal forma que sou incapaz de explicar. Meu amor é demasiado único e singular. Singular o bastante para afetar única, inteiramente e intensamente a mim. Somente meu corpo, somente minha alma e meus sentimentos. Minha necessidade e meu desejo. E é então que meus olhos ardem, minha pele padece perdendo a cor. Que meus pés perdem o equilibro e meu mapa se apaga me tirando do caminho. Perco a direção. Perco o sentido e o propósito. Perco a razão. Não tenho ódio. Tenho vergonha. Além de tudo que é certo... Tenho raiva de mim.
Como nos muros de tijolo seco. Sou um cartaz ilegível. Conto informações desconhecidas de lugares perdidos. Sou parte das ruínas. Sou uma arte sem valor e sou um lixo. Madames me olhos com desdém. Homens me cospem. Fui criado somente para aqueles que são capazes de ler nas entrelinhas. Somente para aquele que sabe sentir o que eu sinto quando me vê nos olhos. Pois nunca me olhou diretamente. Sou incapaz de olhar além do que é físico e próximo.
[...] É incapaz de pensar por mais de um segundo.
Matheus Oliveira