23 março 2011

Circulos Viciosos

Eu estou numa rota direta como um andróide e o meu coração bate como uma bomba. Sem você por aqui é desconfortável. Eu sempre preciso de você do meu lado e você me faz cair como se eu desmoronasse. O caminho que você me fez percorrer é traçado por estrelas no céu e dor a minha volta. E eu não sei por quê.
Tento fugir de você e tudo isso, mas acabo voltando. Dou um giro completo no caminho que fiz pra te encontrar. Não consigo sair dessa armadilha que você pregou em mim. Meu coração como uma bala. Tente fugir e permaneça parado como num circulo vicioso. Porque você sabe que a gente sempre volta. Sempre volta.
E como se eu acordasse toda manha começando tudo do inicio. Não é uma rotina como a que eu sonhei. Como um déjà vu sem fim. Peço-te para me deixar ir e você me segura na porta de saída com os olhos. Eu preciso sentir-me bem como se você fosse embora da minha vida ou se eu encontrasse um lugar qualquer para ir. Sei que não é aqui, pois as pessoas interferem naquilo que elas não sabem. O que eu sinto aqui dentro é tão secreto que nem eu mesmo posso definir. E eu não sei por quê. Não sei por quê. Não sei por quê.
Eu permaneço fugindo, tentando, cantando e gritando. Mas continuo enrolado no centro desde anel. Eu puxo essas cordas, mas nem as queimando consigo me livrar. Aquelas milhas que eu corri atrás de você tentando fazer alguma diferença não mudaram nada fora de mim e eu não sei por que tento fugir de você e tudo isso, mas acabo voltando. Dou um giro completo no caminho que fiz pra te encontrar. Não consigo sair dessa armadilha que você pregou em mim. Meu coração como uma bala. Tento fugir e permaneço parado como num circulo vicioso. Porque você sabe que a gente sempre volta. Sempre volta.
Matt Castan

02 março 2011

Liberdade e Fantasia

Alice ali deitada na cama de pernas cruzadas e de cabeça longe olhando o teto. Pensava no quanto o mundo era um lugar ruim. Não gostava das pessoas. Não gostava da cidade. Não gostava dos jardins de outono. Acreditava no caráter e no moralismo. Queria se mover. Porém era uma garota jovem. Jovem demais. Tinha a pele clara e lisa. Tinha a alma pura. Nunca havia feito nada de errado. Nunca havia tentado algo diferente. Mas ela era diferente. Mais velha do que todos os seus conhecidos. Mais madura que seus pais e mais sabia que seus avos. Era incoerente viver sobre essas circunstancias. Ela gostava de filmes de suspense e não acreditava nos escritores do amor. Lia livros bons e dignos de um velho de 60 anos. Ela não tomava nada artificial e não comia, simplesmente, nada. Água de manha no banho, à tarde no café e a noite antes de dormir. Sempre ali na sua cama. De madeira velha, como a casa, com cobertores de renda velha e cheiro de mofo. Ao seu lado na janela o vento sacudia o pinheiro do quintal. Sacudia como a vontade que a jovem menina tinha de se levantar da cama. Mas era, pra ela, tão confortável estar ali com a cabeça sobre as mãos. Descansava tão delicada que parecia calma. Sua cabeça girava como um tufão. Como seus conflitos flutuando num universo paralelo.
Alice não gostava do seu namorado. Alice não gostava de beijos, e nem tem caricias. Alice não gostava de meio de comunicação virtual. Não tinha telefone, não tinha internet, não tinha televisão no seu quarto. Alice tinha um pequeno radio velho de madeira de seu avo. Que escutava somente na hora de dormir. Alice pensou um pouco e viu que deveria se mover. Jogou as pernas para fora da cama e pôs-se sentada com as mãos sobre os joelhos. O cabelo levemente bagunçado com alguns fios caindo sobre o rosto.
Desceu as escadas com os murmúrios da família invadindo os ouvidos. Não deu atenção. Não deu adeus. Pegou um guarda-chuva e saiu pela porta da frente. Sem medo de fazer barulho. Sem importar-se com alguém que estava ali. E do lado de dentro o mesmo. Ninguém se importou quando ouviu Alice saindo do quarto. E descendo a escada e batendo a porta. Ninguém nunca havia se importado com a boca suja da menina. Ninguém nunca havia se importado com a falta de apetite e suas esquizofrenias. Aos olhos da família a menina era louca. E louca foi andando sobre as folhas que cobriam o caminho de pedra branca. Pedra solta que fazia barulho. Ela foi com a roupa do corpo. A roupa com que dormira noite passada. Nunca sorria, não abria a boca para nada. Seus olhos giravam lentamente sobre a paisagem. Parecia não conhecer aquela cidade horrível. Será que Alice um dia havia saído de casa? Caminhado pela cidade?
Alguns se vestiam bem, alguns tocavam violão na calçada. Alguns vendiam e alguns comprovam. Mesmo assim alguns roubaram. Alguns choravam e alguns eram bobos. Alguns eram feios e a maioria era hipócrita. E Alice levou o dia inteiro para chegar ao outro lado da cidade. Onde havia uma estrada cruzada por uma linha amarela.  Um homem sem camisa, de corpo jovem e semblante velho trocou o guarda-chuva de Alice por uma garrafa de água. Uma água estranha e ardente. A garota bebeu. E viu sua pele envelhecer um pouco. A partir de então a mulher continuou bebendo a água. Sem se preocupar. Um caminhão vermelho parou na beira da estrada e abriu a porta. Alice entrou e permaneceu calada ate beber a ultima gota do líquido desconhecido. O motorista, um bom homem, sorriu para Alice. Logo a mulher contou-lhe toda historia de sua vida incrível. De como nasceu e cresceu e fim. E o motorista fascinado abriu a porta para que a mulher descesse. Sem querer saber seu nome e sem contar seu nome. Sem agradecer e sem dizer uma palavra colocou seu pé no chão enquanto o cabelo voava atacando seus olhos. Olhou para cima e viu algumas desprezíveis estrelas brilhando. Com isso já sabia as horas, os minutos, os segundos e o clima. Como se estivesse em casa voltou no mesmo caminho. Adentrou a rua que abria a cidade e demorou toda a madrugada para chegar ao outro lado da cidade. Era tudo novo e diferente. Poucas pedras no caminho de casa. O pinheiro existia somente na raiz e num pequeno toco. O sol começou a nascer quando ela chegou do outro lado. A luz batia no seu rosto cansado lentamente. Não havia som, nem leves sussurros na cidade. Alice entrou com medo de fazer barulho. Subiu as escadas na ponta dos pés e achou ali no quarto uma cama de madeira podre. Um rádio queimado e um colchão com poeira. Deitou devagar. Deitou-se de lado com a cabeça sobre o braço esquerdo que deitava sobre o travesseiro. Uma lagrima escorreu quando fechou os olhos. Adormeceu devagar. E descansou.
Alice morreu na madrugada de oito de Abril. Trinta e sete anos depois de sair de casa pela primeira vez. Seu corpo não foi velado. Fez companhia a toda a poeira que jazia em cima do colchão.
Na casa antiga, na cozinha. A família comemorava mais um dia feliz. Depois de trinta e sete anos desde alguma coisa boa que havia acontecido na casa. Ninguém se lembrava mais o porquê da festa. Alguém dissera a trinta e sete anos atrás. “O dia mais feliz de nossas vidas. O dia da liberdade”.
Daniel Gualandris

Intocável pele

A dor de cabeça que não dói fisicamente. O coração batendo forte por minutos, horas e dias. Sem parar. Os olhos fixos na mão trêmula e a consciência focada no corpo debatendo-se como um ataque epiléptico. Como se eu não fosse aquele que sempre fui. Como se eu não conhecesse esse sentido sempre acontecido comigo. A falta do controle e a falta do foco na vida. Quando digo que estou com problemas no trabalho, porém o trabalho é meu corpo e minha alma. Minha necessidade de  ter alguma fonte de combustível. E a minha fonte passando longe como uma miragem. E rápida visão de ódio, não meu. Minha vergonha e minha dor desconhecida. Minha vontade e minha necessidade vêm à tona em segundos quando eu vejo a chuva caindo. E a chuva sem me tocar molhando o corpo. As lagrimas dos céus escorrendo sobre minha face. Minha roupa seca e minha pele suada. O som que me lembrava os sonhos, a música que me fazia dormir. Nada me conforta mais. Nada me acalma mais. Nada é capaz de me fazer parar. Eu quero parar e não consigo. A necessidade. Eu sempre sonhei com aquele tesouro. Eu sempre quis aquele arco-íris do céu e do mundo. Que deveria ser do meu mundo, que deveria ser meu. Eu queria que fosse ao meu lado que brilhasse. Eu queria ser essa cor morta por de trás da vida. Eu sou a nuvem negra que calma voa por ali. Sem falar. Sem pesar. Sem sentir e sem direito. Sem braços e de mãos atadas eu sou o melhor. Somente por debaixo da casca grossa das arvores velhas de milhões de anos. A minha beleza é rubra e forte. Minha beleza e muito, e ainda assim pouco, valorizada. Ela esta no meio de muito verde. No centro e quase impossível de ver. É preciso crescer, é preciso se elevar, é preciso ser maior para alguma valorização do valor da vida. Do valor do sentimento. Da minha vontade.
Eu queimo rápido feito álcool e explodo como gasolina no deserto sobre o sol quente. O sentimento é como isso. Instantâneo, ligeiro, veloz. É como a pétala que cai da ultima mulher do outono e quando toca o chão sobe ao céu como fogos de artifício. E como o sangue que pode vazar pelo diafragma oprimido como a ponta da agulha em poucos segundos e pode não ser. Tudo se limita na explosão dos sentidos pecaminosos. Do meu desejo. Tudo acontece de acordo com meus dedos. Tudo vem de mim e vai ao chão quando explode. Tudo vem do meu sonho e corta-me em brasa. Meus devaneios me cicatrizam de tal forma que sou incapaz de explicar. Meu amor é demasiado único e singular. Singular o bastante para afetar única, inteiramente e intensamente a mim. Somente meu corpo, somente minha alma e meus sentimentos. Minha necessidade e meu desejo. E é então que meus olhos ardem, minha pele padece perdendo a cor. Que meus pés perdem o equilibro e meu mapa se apaga me tirando do caminho. Perco a direção. Perco o sentido e o propósito. Perco a razão. Não tenho ódio. Tenho vergonha. Além de tudo que é certo... Tenho raiva de mim.
Como nos muros de tijolo seco. Sou um cartaz ilegível. Conto informações desconhecidas de lugares perdidos. Sou parte das ruínas. Sou uma arte sem valor e sou um lixo. Madames me olhos com desdém. Homens me cospem. Fui criado somente para aqueles que são capazes de ler nas entrelinhas. Somente para aquele que sabe sentir o que eu sinto quando me vê nos olhos. Pois nunca me olhou diretamente. Sou incapaz de olhar além do que é físico e próximo.
[...] É incapaz de pensar por mais de um segundo.
Matheus Oliveira

16 fevereiro 2011

Luz sem Sol

O mundo ali girando como se tudo fosse novo. Como se a historia não tivesse uma direção escrita. Tudo esta pronto. Já está lacrado a sete palmos antes de Cristo. Se não fosse como eu digo estaríamos rolando montanha abaixo sem rumo e sem roupa. Enquanto alguns macacos dominavam o nosso planeta. Aquele de pedra amarela, azul e verde.
Como seria se nossos caminhos não houvessem se cruzado. Se hoje não houvesse comigo suas fotos, nossas historias, seus ensinamentos. Suas lembranças. Seu perdão com uma pitada de literatura e canela. O segredo é que eu nunca gostei de canela, somente ao seu lado. Como seria se hoje você não estivesse aqui na cidade comigo? Não sei, ainda, acordar sem seus olhos abertos a me esperar. Não sei esquecer seus perfumes e quando me perfumo. Eu ainda não sei dormir em outro lugar que não em seu colo. Eu não sei deixar de acreditar em seus anseios. Só sei preparar o seu café, mesmo quando tenho sono. Não sei bem como seria uma vida sem a sua presença. Mas sei que muita coisa perderia o sentido natural para mim como se o céu desmoronasse sobre os homens. Como eu tenho visto ultimamente acontecendo com as nuvens laranja, nuvens vermelhas ou nuvens rosa. Homens de preto. De gravata.
Quando o vento vem sereno batendo na varanda eu estou seguro. Pois você fechou as janelas. E deixou as cortinas quietas para me presentear com a lua. Como a neve pode ficar na vidraça. Eu posso ficar no seu colo envolto no calor de seus abraços ate o relógio dançar por todo o salão medieval. A perfeição não nos relaciona. Mas eu passo tanto tempo com este desejo que quando o clima muda em fim e eu fico em casa. Quero estar com você, mesmo na chuva. Mesmo na rua. Mesmo na grama banhada de gelo.
Eu fui mandado ao mundo esculpido por cristais encomendado única e inteiramente a você. Posso me perder por vezes nesse caminho. Do mesmo modo que você sempre se perde e até algumas vezes. Porém do mesmo modo que vim. No mesmo caminho você me esperava. Sou a ultima peça que lhe faltava num quebra cabeça. Sou como o “destino”  em grego do caça palavras que define o seu futuro. E ainda não existe um profissional que traduza meus sentimentos. Contudo a gente sempre vai se encontrar numa ilha de sonho do outro lado das nuvens cinza de chuva. Num paraíso. E você comigo, assim, faz sentido.
O café ficou na mesa intocado. O mesmo ocorreu com o seu jornal. Quem dera poderá eu dizer que intocadas estavam suas mais belas vestes. O requinte se foi. Seus vinis esquecidos diziam-me em silencio de lá do móvel velho que seu avo nos deu de 1958. Onde estavam nossas fotos. Enfermo na cama com as cortinas fechadas e as janelas abertas. Sem ar. Sem cigarro. Sem Papel e sem você. Não haveria dali pra frente algum controle. O sentido perdeu-se na manha quando você não estava na cama. Permaneci ali sempre, quieto, morrendo aos poucos. Não sei mais fazer café, não sei mais mover meus pés. Preciso de algum combustível. Mas no universo não existe uma replica daquilo que era você.
Eu deveria tentar parar de acreditar que nos somos alguém. E que algum dia juntos ficaremos. Sair da ilusão de almas gêmeas definidas pelo destino. Mas fico imaginando como seria a vida sem amar você.
Márcio Mattos

11 fevereiro 2011

Assombro

Estamos sozinhos. Sem promessas e sem dividas. E não digo que não tentei. Rodei em círculos por longos anos ate descobrir que a evolução não é feita apenas pelo movimento de meus dedos. Não cometa erros, dizia meu pai.
Então me toque agora que somos somente um. Pois somos o sol da colina. Simplesmente esteja ao meu lado. E eu como uma pedra admiro o sol sobre a montanha. Sei que você é a nuvem que despeja sangue gelado sobre o manto acido do outro lado do mundo. Este meu céu tão amado. Meu entardecer e o sono do sol. Sei que sou a sobra das estrelas. E as estrelas são você na madrugada. O universo não é a minha arma contra você e meu coração não é seu futuro. Acredite na minha fé que é velha e veio ao mundo antes da minha chegada. Antes da lua de 1993.
Nosso amor é somente mais uma batalha fria. Não tente querer. Não adianta querer. Não adianta querer. Nós somos fortes no nosso amor hippie. E eu aqui metralhando seus pés com foguetes de 21 réveillons passados, porém, seus olhos ainda fixam os meus. Cego. Sempre soube que é mais fácil acordar de olhos fechados e viver assim ate o fim. Do dia, da hora e do mundo.
Estamos sozinhos como duas pedras no chão. A espera de dois jovens revolucionários que nos jogarão na multidão medíocre. Nós somos julgadores da solidão. Eu sou o melhor que você tem. Nós estamos sozinhos sem promessas e sem pecado. Seu ódio é uma tragédia e minha pena é somente miséria. Você é velho e eu demasiado jovem. Contudo quando a máscara cai invertemos os papeis. Você queima por fora e eu queimei por dentro.
Meu amor e a maior das armas para sua destruição. Sem promessas. Nosso amor é uma batalha. O universo não nos espera, este não é o caminho. Estou perdendo o controle e estou sozinho. Minha promessa: Você vai me matar como na guerra. Como quando eu te matei.
Márcio Mattos

09 fevereiro 2011

Criança Não Toma Café

Café foi feito somente para os cansados. Para autores, artistas e criadores. O aroma acompanha a fumaça queimando todo o interior de seus corpos. Purificação em méritos dos mortos de gostos mundanos. Ou gostos medíocres. Amargo e brutal atacando os lábios e navegando sobre a pele macia em carne viva jamais tocada tão intensamente. A calma que fugiu do mundo. O silencio que fugiu de mim. Preciso amadurecer para compreender as dores do mundo. Os senhores, ou melhor, velhos. O café não foi feito para mim. Não é meu. É de ninguém. Somente de passagem vem sem doce me por pra dormir. De olhos abertos. Inerte. Em transe.
Meu corpo já é incapaz de conviver em paz e sem dor. Sou fraco de mundo. Sou jovem. E jovem no amor. O sol ainda brilha com o céu azul pra mim. O vento. Vento e ar. Ar. Ar fresco, vento. Frio e nuvem. Força. Cansaço e cansado quando caminho nas pedras do barroco que é meu. Mais meu do que de ninguém. Tão humilhado e não reconhecido um velho e uma xícara. Calmo como o tempo, quieto como um predador, bravo como o vento, cego como o amor. O homem e a porcelana. O calor no gelo. O fogo e a água. Escaldante fumaça que trás o aroma dos deuses que dizem com sabedoria o segredo do mundo e da força. Vento, Nuvem, Sol e café.
_ Seja grande meu caro! _ Tossiu _ Venha, sinta-se em casa. Puxe uma cadeira que vou lhe dizer o que conta o jornal dessa manha de sol. Tome um pouco de café.
_ Sem açúcar, por favor. _ Cruzou os dedos e fixando os olhos no velho partiu em prosa. _ Qual foi o resultado do futebol?
Márcio Mattos

08 fevereiro 2011

Cappuccino

Segunda-Feira. Onze horas da manha. Eu merecia algo um pouco mais digno que estar somente ali num banco de madeira. Eu sempre estava ali no banco de madeira sobre as palmeiras que saiam do chão de pedra sujo.
Levantei-me demasiado fraco. Meu peito doía. Na verdade meu corpo doía e meu peito sentia a fraqueza da minha alma. Um vazio que eu até então não havia conhecido. Refletido em meus olhos, talvez?
Foi complicado escolher uma mesa numa cafeteria vazia. Eu ganhei tantas opções. Na janela, na parede, no teto, no balcão. Na calçada, no chão. Ou simplesmente na mesa. Escolhi então a mesa. E pedi meu cappuccino. Sim eu queria um cappuccino bem quente ás onze ensolaradas horas da manha. Queria sentir aquele gostinho de gente grande descendo pela minha garganta. Ouvi uma vez meu tutor dizer que criança não toma café, café é para gente grande. Café é uma salvação dos velhos fracos da vida turva. Para aqueles cansados de fim de tarde. Para os sonâmbulos da depressão. Estou velho e então vou tomar café. Vou queimar cada fio de cabelo liso e jovem, delicado e doce, da pele da criança que esta hospedando meu estomago. Brincando com os caroços de melancia. Vou afogar ele no doce gosto do chocolate e no amargo mundo do café. Amargo é a vida, compreende?
Fazia algum tempo que eu estava feliz. Feliz é uma palavra muito grande, porém. Eu estava muito bem, confortável, carinhoso, apaixonado, agradável, receptivo. E todas as coisas que me fazem bem. Que me deixam realmente alegre, porém. Eu descobri que era tudo mais um truque do destino. O que me decepciona. Nunca ouvi a historia de alguém que sofreu e descobriu que isso foi um caminho para felicidade. Normalmente vivo na esperança e descubro depois de anos que foi somente uma mentira. Para que eu comece a sofrer e cair em outras armadilhas. Cada vez eu demoro mais para chegar ao fundo desse abismo. Sei que fico mais forte a cada momento, mas gosto de ser magro e ossudo.
Depois do cappuccino fumei um cigarro. Lembrei-me também dos seus cabelos. E dos meus chinelos. Como eu posso me distrair assim? Que cigarro gostoso. Pena que o dia está ensolarado. Não combina com meu clima melancólico. Somente ao crepúsculo. Raro crepúsculo. Quando estou vivenciando-o me sinto num silêncio. Silêncio do mundo todo. Fumando um cigarro mudo com gosto de café, chocolate e chantilly.